Adeus, Globalização? A Nova Era das Tarifas e os Rumos do Século XXI
Nos anos 1990 e 2000, o mundo caminhava, aparentemente, rumo à consolidação de uma globalização irreversível. Mercadorias, capitais e ideias cruzavam fronteiras com uma fluidez inédita, impulsionados por acordos multilaterais e avanços tecnológicos. No entanto, no início da terceira década do século XXI, o cenário geopolítico e econômico se transforma radicalmente: estamos presenciando o declínio do paradigma globalista e o retorno de políticas protecionistas — o mundo está, de fato, entrando em uma guerra de tarifas.
O Colapso da Globalização: Fatos e Dados
Dados do FMI (2023) já indicavam um movimento claro de desglobalização: o comércio global como percentual do PIB mundial caiu de 61% em 2008 para 52% em 2022. O World Trade Outlook Indicator da OMC, publicado no final de 2024, apontou um crescimento do comércio mundial inferior a 1%, com setores estratégicos como semicondutores e energia limpa sofrendo retrações expressivas por conta de sanções e sobretaxas.
Os EUA, desde o governo Trump, iniciaram uma escalada tarifária contra a China, que continuou sob o governo Biden, e agora atinge proporções ainda mais amplas sob o novo ciclo político norte-americano. Em 2024, Washington aumentou tarifas sobre baterias, veículos elétricos e painéis solares chineses em até 45%, alegando “ameaças à segurança nacional e à indústria doméstica”.
A China respondeu com tarifas sobre produtos agrícolas americanos e europeus, bem como restrições severas ao uso de tecnologias ocidentais por empresas estatais. O decoupling tecnológico entre EUA e China se tornou um marco do novo cenário, com países sendo pressionados a escolher lados.
Consequências Econômicas: Reconfiguração dos Blocos
Blocos fortalecidos:
- BRICS+: Com a entrada de novos membros como Irã, Argentina e Arábia Saudita, o bloco ganha musculatura e passa a ser uma alternativa aos sistemas financeiros ocidentais. A criação de uma moeda comum para comércio bilateral entre alguns países membros é um dos projetos mais ambiciosos da década.
- União Econômica da Eurásia (liderada pela Rússia e aliada à China): fortalece-se como um canal paralelo ao Ocidente, focado em energia, infraestrutura e exportações militares.
- Acordo RCEP (Parceria Econômica Regional Abrangente): impulsionado pela Ásia, com destaque para o sudeste asiático, segue crescendo com fluxos internos de comércio, mesmo diante da guerra tarifária com o Ocidente.
Blocos enfraquecidos:
- União Europeia: enfrenta dilemas internos entre manter o alinhamento com os EUA ou buscar certa autonomia frente às tensões comerciais. A dependência energética e tecnológica torna o bloco vulnerável.
- OMC: perde relevância à medida que os grandes players ignoram suas resoluções e atuam via acordos bilaterais ou grupos exclusivos. O sistema multilateral de comércio está, na prática, paralisado.
Acordos Fortalecidos e Enfraquecidos
Fortalecidos:
- Acordos bilaterais regionais, como o Mercosul-UE (ainda em disputa, mas reativado com impulso brasileiro e argentino) e acordos China-América Latina, ganham força à medida que os países buscam alternativas ao comércio com grandes potências.
- Acordos energéticos estratégicos entre Rússia-China, China-África e Índia-Oriente Médio, reconfiguram as cadeias de fornecimento.
Enfraquecidos:
- NAFTA reformulado (USMCA) enfrenta tensões internas com o México sendo alvo de tarifas americanas em setores automotivo e agrícola.
- Parcerias Transpacíficas sem os EUA (como o CPTPP) perdem atratividade diante das sanções cruzadas e medidas unilaterais.
A Guerra Tarifária é um Prenúncio de Conflito Militar Global?
Embora uma guerra tarifária não seja, por si só, uma causa direta de guerra militar, ela cria um ambiente de animosidade, desconfiança e tensões geopolíticas, especialmente quando combinada com nacionalismo econômico, corrida armamentista e disputas territoriais.
O paralelo histórico mais próximo é o período entre guerras (1919–1939), quando políticas protecionistas como o Smoot-Hawley Tariff Act dos EUA agravaram a crise de 1929 e contribuíram para as condições que precederam a Segunda Guerra Mundial.
Hoje, o mundo assiste ao aumento dos gastos militares globais (US$ 2,2 trilhões em 2024, segundo o SIPRI), ao mesmo tempo em que crises regionais (Ucrânia, Taiwan, Mar Vermelho) se tornam pontos sensíveis. A rivalidade sino-americana, a ascensão de potências regionais com interesses conflitantes e a militarização de cadeias logísticas críticas (como semicondutores e energia) compõem um cenário preocupante.
A Nova Ordem Mundial Fragmentada
O mundo caminha para uma desglobalização seletiva, onde blocos regionais definem seus próprios termos de comércio e segurança. A guerra tarifária, ao mesmo tempo em que protege indústrias locais, desorganiza cadeias produtivas globais, encarece produtos e empobrece economias dependentes de exportação.
O multilateralismo está sendo substituído por uma lógica de alianças circunstanciais, onde o pragmatismo político se sobrepõe às regras internacionais. O futuro, portanto, parece mais fragmentado, imprevisível — e perigosamente instável.